O TRIPÉ BÁSICO DA DOUTRINA UMBANDISTA

 

O TRIPÉ BÁSICO DA UMBANDA 

"   - Quem é você que ocupa o corpo desse jovem ? 

"  -  Sou apenas um caboclo brasileiro .( ...) Mas se tendes necessidade de um nome, sou o Caboclo das 7 Encruzilhadas . 

" -  Nego veio senta no chão pra num senta em lugar de branco ." 

Ao longo da sua trajetória a Umbanda foi sendo adotada, contestada, amada, atacada ...enfim ! 

Segundo a história, essas foram as primeiras  manifestações e as suas frases para a fundação da Umbanda. Se  é certo que ela já existia antes do Médium Zélio Ferdinando de Moraes , em seus fundamentos de uso de ervas e incorporação de ancestrais, doutrinas herdadas das religiões africanas e indígenas, se encontrando com o Kardecismo e o Catolicismo europeu, foi a partir de 15 de Novembro de 1908, que a "nova"  religião se torna fortemente popular . E sobrevive até hoje no coração de milhares, dando esperança, passes, conselhos, caminhos e principalmente jogando luz na sociedade brasileira, onde orgulhosamente figura como uma religião 100% nacional. 

Como uma religião que responde pela ancestralidade de um povo , como o Judaísmo, Hinduísmo e Islamismo, a Umbanda cumpre seu papel, na intersecção das raízes de um povo e a sua espiritualidade , onde surge então o TRIPÉ DE SUSTENTAÇÃO DA DOUTRINA da onde surgiu a " Boa Nova " enquanto religião e apresenta a ancestralidade do povo brasileiro .


Pretos Velhos , Caboclos e Erês 

A despeito da representação  ancestral do povo brasileiro, existem outras interpretações para que , essas três linhas de trabalho espiritual, sejam consideradas as fundamentais da Umbanda. 

Uma delas, diz que as três entidades, representariam estágios da evolução humana : 

Erês - A infância 

Caboclos e Caboclas - A fase adulta 

Pretos e Pretas Velhas - A sabedoria do (a) ancião ( anciã ) 

Outras fontes afirmam, que essas entidades representam as qualidades essenciais que um umbandista deve dispor : 

Erês - A pureza  

Caboclos e Caboclas - A sabedoria da Natureza 

Pretos e Pretas Velhas - A religiosidade e a fé incondicional 

Outras ainda afirmam simplesmente que, se tratam das três linhas mais evoluídas, sem as quais, as demais não teriam propriedade de manifestação em um terreiro . 

modelo da Umbanda seria, pois, a própria sociedade brasileira, racionalizada e moralizada. O passado brasileiro é todo muito comprometido e com uma imagem forte como um país que foi “construído a sangue,”  haja vista o extermínio de índios e negros no processo doloroso que foi a construção da cultura brasileira.

CONSIDERAÇÕES SOBRE  CABOCLOS E CABOCLAS 

O Caboclo é o nome dado aos índios na Umbanda. São representados por personagens ativos, indomáveis, orgulhosos de sua condição e altivos. São identificados com os domínios da natureza: selva, cachoeira, águas, pedreiras. Quando incorporados se ornamentam com objetos que denotam a origem indígena (arcos, flechas, penas na cabeça) e fumam muito, fazendo uso do charuto. 
A imagem do índio cultuada na umbanda é bem romantizada, fruto 
do movimento literário brasileiro do séc. XIX, o Romantismo, que, na 
procura por um modelo simbólico de nação que evocasse a idéia de um 
país independente, fez surgir um índio bom e valente. Renato Ortiz lembra 
que esta imagem estereotipada do índio veio responder à questão: quem 
são os brasileiros? Se o índio passa a ser sinônimo de liberdade, ele é 
também amordaçado em sua própria revolta: “como a independência é um 
fato consumado, toda rebelião contra o mundo dos brancos torna-se a 
partir desta data um ato injustificável; o aprisionamento do Caboclo 
coincide assim com a liberdade da nação brasileira.”
A valorização do indígena na cultura brasileira, tanto na  popular como na espiritual.  chega aqui ao seu ápice. Ele não é apenas o bom selvagem, nobre, 
corajoso e livre, mas também sábio e cristão. Não se 
trata daquele, nem muito menos do “bugre 
selvagem”, mas de “entidade de luz” instruída, inteligente e moralizada, por isso capaz de bem orientar seus clientes. 
Em sua primeira manifestação em 1908 , o Caboclo das 7 Encruzilhadas , afirma ter sido um padre jesuíta em uma de suas reencarnações, cumprindo a Lei do Retorno, foi lhe concedida a graça de voltar á terra como um índio brasileiro. 
Se no passado o índio brasileiro foi exterminado, a Umbanda deu-lhe  um novo significado, nos ajudando  a ver quem de fato somos . Essa nova consciência é mediada por energias psíquicas que se originam dos arquétipos que guardam a sabedoria da natureza. Se foi possível num determinado tempo que os rios, as montanhas, o vento, os pássaros, os vegetais atuassem de modo significativo e eficaz na vida de um determinado povo, esse conhecimento pode retornar na imagem do Caboclo e conectar novamente o indivíduo a um mundo invisível mas real.


CONSIDERAÇÕES SOBRE O PRETOS E PRETAS  VELHAS 

Já os Pretos-velhos fazem sobressair a condição dos pretos e escravos. Se apresentam com o corpo curvado pela idade, falam errado, pitam um cachimbo. São vistos como bondosos, paternais, amigos. Contrariamente aos caboclos, a imagem do Preto-velho evoca um estereótipo da aceitação passiva do sistema escravocrata. O negro,  para se fazer reconhecer socialmente não tem outra alternativa senão a de aceitar a única imagem positiva que a sociedade lhe oferece: a humildade. Aos maus tratos recebidos do senhor de engenho, o negro responde com compreensão. Segundo esse autor é “graças a esta malícia dos fracos, que ele se vê recompensado pelo Senhor Deus.” 

 Mais uma vez aqui, ressalta-se a evocação á Sociedade Brasileira. Quem tem uma família brasileira não poderá negar seu encontro com o passado do africano escravizado em nossa terra. Quem não a tem, pode ter tido um ancestral amamentado por uma ama de leite negra e escrava, ou saborear uma feijoada ou acarajé de cultura afro herdada ! 

A imagem do Preto-Velho no plano espiritual traz a articulação entre a condição de um ex-escravo e a capacidade deste personagem de ser bondoso e generoso. Através desse comportamento,  a imagem dos Pretos-velhos é construída atualizando as seguintes oposições: a bondade e a generosidade dos humildes, em oposição ao egoísmo daqueles que estão na posição de senhores e brancos. 
Neste contexto, os papéis sociais são invertidos, “colocando os humildes como 
os mais fiéis depositários da ordem, da moral, da sabedoria e dos bons 
sentimentos que cimentam as relações entre os homens.”


ERÊS 

Quanto à Criança, sua triste história no Brasil aponta para um mundo nada civilizado, o que leva a fazer juz sua presença na religião umbandista. O abandono de crianças no Brasil tem sido uma constante desde o século XVI, cujo processo colonizador acabou gerando uma multidão de órfãos desamparados – os indiozinhos sem pais, de tribos que foram dizimadas pela peste, fome e conflitos com os brancos.

Já no século XVII, o abandono de crianças passou a ser percebido entre a população de origem portuguesa. Renato Venâncio aponta a “modalidade selvagem de abandono: meninas e meninos com dias ou meses de vida eram deixados em calçadas, praias e terrenos baldios, conhecendo por berço os monturos, as lixeiras, e tendo por companhia cães, porcos e ratos que perambulavam pelas ruas.

Os abandonados podiam ser filhos de escravas que fugiam, de 
mulheres brancas por motivos morais ou miséria, ou ainda de mulheres 
que morriam. A sociedade desconhecia orfanatos ou leis favoráveis à 
adoção, o que fez às Santas Casas implementar um sistema de recebimento 
de crianças enjeitadas, que foi denominado de a Roda dos Expostos
comum em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e 
Curitiba, e que subsistiu até o os meados do século XIX, com grande 
sucesso.
A Roda consistia num cilindro que ligava a Casa de Misericórdia 
à rua, funcionando de dia e de noite. Ali, sem ninguém ver eram deixadas 
as crianças enjeitadas e crianças já mortas.
Fora o abandono, o índice de mortalidade infantil era assustador, 
causado pelas precárias condições de saúde e saneamento da época. 
É importante rememorar a história do símbolo dessa entidade 
espiritual, para que se possa compreender seu significado no panteão 
umbandista. Se o Caboclo e o Preto-velho são figuras simbólicas que 
propiciam tanto a reatualização de conflitos com o contato com o 
arquétipo do Velho Sábio, é preciso agora, buscar o significado 
psicológico da entidade da Criança. Como foi visto, a criança também faz 
parte da grande massa de excluídos sociais. No entanto, ela tem uma 
função psíquica, arquetípica que diz respeito ao elemento puro, ao que é 
novo, intransigente, inquieto, rebelde. Tais elementos são revigorantes 
para o indivíduo que tem suas energias psíquicas bloqueadas, inertes.
Jung se refere à infância como uma região psíquica que é 
personificada pela criança. Não a criança real, mas um termo para designar 
uma modalidade de existência, de percepção e de emoção. A criança ora 
tem o aspecto da divindade criança, ora o do herói juvenil, tendo “ambos 
em comum o nascimento miraculoso e as adversidades da primeira 
infância, como o abandono e o perigo da perseguição”.
A Criança, entidade espiritual que reconta a história do “massacre 
dos anjinhos”, como o arquétipo da criança, coloca em questão a 
dificuldade da psique em lidar com os elementos novos e tenros, que 
precisam de cuidado para crescer, e cuja dificuldade estava cruelmente 
presente na sociedade colonial, atingindo os índios, negros e crianças. Diz 
Hillman sobre o arquétipo da criança que 
(...) a criança constitui sem dúvida a maior porção dos 
conteúdos reprimidos, daí ser a revolução contemporânea 
em favor do oprimido – o negro, o pobre, a mulher, o 
natural, o subdesenvolvido – uma revolução da criança, 
inevitavelmente.
É preciso, então, evocar a criança arquetípica, psíquica, sua 
teimosia, sua imaginação, sua certeza no futuro, sua petulância, sua 
inadequação, seu choro, sua pretensão de onipotência, seus impulsos 
arcaicos, sua autenticidade. Na Umbanda, a Criança é assim evocada, 
possibilitando aos seus fiéis entrar em contado com energias psíquicas que 
dizem respeito a mudanças, transformação, fazendo com que a pessoa 
readquira juventude, coragem, invencibilidade, futuridade, esperança. 
Tudo que é necessário para se levar numa viagem chamada 
“sobrevivência”.

ESPÍRITOS QUE O POVO BANTU INCORPORAVA ANTES DA UMBANDA E DO CONCEITO DO TRIPÉ DA UMBANDA 

Ancestrais ( Bauru) - Equivalem aos nossos Pretos e Pretas Velhas 
Inocentes ou Encantados - Equivalem aos nossos Erês 
Espíritos da Floresta - Equivalem aos nossos Caboclos 





O TRIÂNGULO DA  ESQUERDA 




FONTES : 

Exu - Luz e Sombra - Sonia Regina 
Colaboração: Emilio Gara 
Siga-nos no Instagram :   comunidade.paiantonio 
Redação :  Silvio Tadeu 



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bruxas, Caminhoneiros, Palhaços e Mendingos...novas linhas na Umbanda ?

Desmistificando Exu

OS SONHOS