O Livro dos Médiuns
ESPÍRITOS E ADVINHAÇÕES
Muitos, aos demais, só vêem no Espiritismo um novo meio de adivinhação e imaginam que os Espíritos existem para predizer a sorte de cada um.
Ora, os Espíritos levianos e zombeteiros não perdem ocasião de se divertirem à custa dos que pensam desse modo. E assim que anunciarão maridos às moças; ao ambicioso, honras, heranças,
tesouros ocultos, etc. Daí, muitas vezes, desagradáveis decepções, das quais, entretanto, o homem sério e prudente sempre sabe preservar-se.
A VERDADEIRA MISSÃO
O verdadeiro espírita jamais deixará de fazer o bem.
Lenir corações aflitos; consolar, acalmar desesperos, operar reformas morais, essa a sua missão.
E nisso também que encontrará satisfação real.
SOBRE SER ESPÍRITA E ESTUDAR
Ora, isso não é possível, porque possível não é fazer-se um curso de
Espiritismo experimental, como se faz um curso de Física ou de Química. Nas ciências naturais, opera-se sobre a matéria bruta, que se manipula à vontade, tendo-se quase sempre a certeza de poderem regular-se os efeitos. No Espiritismo, temos que lidar com
inteligências que gozam de liberdade e que a cada instante nos provam não estar submetidas aos nossos caprichos.
Cumpre, pois, observar, aguardar os resultados e
colhê-los à passagem.
Daí o declararmos abertamente que quem quer que blasone de os
obter à vontade não pode deixar de ser ignorante ou impostor. Daí vem que o verdadeiro Espiritismo jamais se dará em espetáculo, nem subirá ao tablado das feiras O meio, aliás, muito simples, de se obviar a este inconveniente, consiste em se começar pela teoria. Aí todos os fenômenos são apreciados, explicados, de modo que o estudante vem a conhecê-los, a lhes compreender a possibilidade, a saber em que
condições podem produzir-se e quais os obstáculos que podem encontrar. Então, qualquer que seja a ordem em que se apresentem, nada terão que surpreenda. Estecaminho ainda oferece outra vantagem: a de poupar uma imensidade de decepções
àquele que queira operar por si mesmo. Precavido contra as dificuldades, ele saberá manter-se em guarda e evitar a conjuntura de adquirir a experiência à sua própria custa.
Ainda outra vantagem apresenta o estudo prévio da teoria - a de mostrar imediatamente a grandeza do objetivo e o alcance desta ciência
O caráter inteligente do fenômeno não pode ser posto em dúvida:
logo, há nele mais alguma coisa do que uma ação fluídica. Depois, a espontaneidade do pensamento expresso contra toda expectativa e sem que alguma questão tenha sido formulada, não consente se veja nele um reflexo do dos assistentes.
Eis aqui as conseqüências gerais deduzidas de uma observação completa e que agora formam a crença, pode-se dizer, da universalidade dos espíritas, visto que os sistemas restritivos ano passam de opiniões insuladas:
QUEM SÃO OS ESPÍRITOS
1º Os fenômenos espíritas são produzidos por inteligências extracorpóreas, às quais também se dá o nome de Espíritos;
2º Os Espíritos constituem o mundo invisível; estão em toda parte; povoam infinitamente os espaços;
3º Os Espíritos reagem incessantemente sobre o mundo físico e sobre o mundo moral e são uma das potências da Natureza;
4º Os Espíritos não são seres à parte, dentro da criação, mas as almas dos que hão vivido na Terra, ou em outros mundos, e que despiram o invólucro corpóreo; donde se segue que as almas dos homens são Espíritos encarnados e que nós, morrendo, nos tomamos Espíritos;
5º Há Espíritos de todos os graus de bondade e de malícia, de saber e de ignorância;
6º Todos estão submetidos à lei do progresso e podem todos chegar à perfeição;mas, como têm livre-arbítrio, lá chegam em tempo mais ou menos longo, conforme seus esforços e vontade;
7º São felizes ou infelizes, de acordo com o bem ou o mal que praticaram durante a vida e com o grau de adiantamento que alcançaram. A felicidade perfeita e sem mescla é partilha unicamente dos Espíritos que atingiram o grau supremo da perfeição;
8º Todos os Espíritos, em dadas circunstâncias, podem manifestar-se aos homens; indefinido é o número dos que podem comunicar-se;
9º Os Espíritos se comunicam por médiuns, que lhes servem de instrumentos e intérpretes;
10º Reconhecem-se a superioridade ou a inferioridade dos Espíritos pela linguagem de que usam; os bons sé aconselham o bem e só dizem coisas proveitosas; tudo neles lhes atesta a elevação; os maus enganam e todas as suas palavras trazem o cunho da imperfeição e da ignorância. Os diferentes graus por que passam os Espíritos se acham indicados na Escala Espírita (O Livro dos Espíritos, parte II, capítulo I, n. 100). O estudo dessa classificação é indispensável para se apreciar a natureza dos Espíritos que se
O Espírito , precisa, pois, de matéria, para atuar sobre a matéria.
"Há; porém, as mais das vezes o que fazem, para isso, os atrai, em vez de os afastar. O melhor meio de expulsar os maus Espíritos consiste em atrair os bons. Atraí, pois, os bons Espíritos, praticando todo o bem que puderdes, e os maus desaparecerão, visto que o bem e o mal são incompatíveis. Sede sempre bons e somente bons Espíritos tereis junto de vós."
As comunicações sérias são ponderosas quanto ao assunto e elevadas
quanto à forma. Toda comunicação que, isenta de frivolidade e de grosseria, objetiva um fim útil, ainda que de caráter particular, é, por esse simples fato, uma comunicação séria. Nem todos os Espíritos sérios são igualmente esclarecidos; há muita coisa que eles
ignoram e sobre que podem enganar-se de boa-fé. Por isso é que os Espíritos verdadeiramente superiores nos recomendam de contínuo que submetamos todas as comunicações ao crivo da razão e da mais rigorosa lógica.
O ESPÍRITO E A SUA COMUNICAÇÃO
137. Instrutivas são as comunicações sérias cujo principal objeto consiste num ensinamento qualquer, dado pelos Espíritos, sobre as ciências, a moral, a filosofia,
151. Acontece freqüentemente ouvirmos, de modo distinto, quando nos
achamos meio adormecidos, palavras, nomes, às vezes frases inteiras, ditas com tal intensidade que nos despertam, espantados. regular.
Os sons espíritas, os pneumatofônicos se produzem de duas maneiras distintas: às vezes, é uma voz interior que repercute no nosso foro íntimo, nada tendo, porém, de material as palavras, conquanto sejam claramente perceptíveis; outras vezes, são exteriores e nitidamente articuladas, como se proviessem de uma pessoa que nos
estivesse ao lado.
De um modo, ou de outro, o fenômeno da pneumatofonia é quase sempre espontâneo e só muito raramente pode ser provocado.
DOS MÉDIUNS
Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é,
por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. Todavia,
usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva. E de notar-se, além disso, que
essa faculdade não se revela, da mesma maneira, em todos
Médiuns inspirados Todo aquele que, tanto no estado normal, como no de êxtase, recebe, pelo pensamento, comunicações estranhas às suas idéias preconcebidas, pode ser incluído na categoria dos médiuns inspirados. Estes, como se vê, formam uma variedade da
mediunidade intuitiva, com a diferença de que a intervenção de uma força oculta é aí muito menos sensível, por isso que, ao inspirado, ainda é mais difícil distinguir o pensamento próprio do que lhe é sugerido.
A espontaneidade é o que, sobretudo, caracteriza o pensamento deste último gênero.
A inspiração nos vem dos Espíritos que
nos influenciam para o bem, ou para o mal, porém, procede, principalmente, dos que querem o nosso bem e cujos conselhos muito amiúde cometemos o erro de não seguir. Ela se aplica, em todas as circunstâncias da vida, às resoluções que devamos tomar. Sob
esse aspecto, pode dizer-se que todos são médiuns, porquanto não há quem não tenha seus Espíritos protetores e familiares, a se esforçarem por sugerir aos protegidos salutares idéias.
Se todos estivessem bem compenetrados desta verdade, ninguém
deixaria de recorrer com freqüência à inspiração do seu anjo de guarda, nos momentos em que se não sabe o que dizer, ou fazer. Que cada um, pois, o invoque com fervor e confiança, em caso de necessidade, e muito freqüentemente se admirará das idéias que
lhe surgem como por encanto, quer se trate de uma resolução a tomar, quer de alguma coisa a compor. Se nenhuma idéia surge, é que é preciso esperar. A prova de que a idéia que sobrevém é estranha à pessoa de quem se trate esta em que, se tal idéia lhe existira
na mente, essa pessoa seria senhora de, a qualquer momento, utilizá-la e não haveria razão para que ela se não manifestasse à vontade. Quem não é cego nada mais precisaNfazer do que abrir os olhos, para ver quando quiser. Do mesmo aquele que possui idéias próprias tem-nas sempre à disposição. Se elas não lhes vêm quando quer, é que está obrigado a buscá-las algures, que não no seu intimo.
Também se podem incluir nesta categoria as pessoas que, sem serem dotadas de inteligência fora do comum e sem saírem do estado normal, têm relâmpagos de uma lucidez intelectual que lhes dá momentaneamente desabitual facilidade de concepção e
de elocução e, em certos casos, o pressentimento de coisas futuras. Nesses momentos, que com acerto se chamam de inspiração, as idéias abundam, sob um impulso involuntário e quase febril. Parece que uma inteligência superior nos vem ajudar e que o nosso espírito se desembaraçou de um fardo.
As respostas seguintes confirmam esta asserção:
a) Qual a causa primária da inspiração?
"O Espírito que se comunica pelo pensamento."
b) A revelação das grandes coisas não é que constitui o objeto único da
inspiração?
"Não, a inspiração se verifica, muitas vezes, com relação às mais comuns circunstâncias da vida. Por exemplo, queres ir a alguma parte: uma voz secreta te diz que não o faças, porque correrás perigo; ou, então, te diz que faças uma coisa em que não pensavas. É a inspiração. Poucas pessoas há que não tenham sido mais ou menos
inspiradas em certos momentos."
Médiuns de pressentimentos
184. O pressentimento é uma intuição vaga das coisas futuras. Algumas pessoas
têm essa faculdade mais ou menos desenvolvida. Pode ser devida a uma espécie de dupla vista, que lhes permite entrever as conseqüências das coisas atuais e a filiação dos acontecimentos. Mas, muitas vezes, também é resultado de comunicações ocultas e,
sobretudo neste caso, é que se pode dar aos que dela são dotados o nome de médiuns de pressentimentos, que constituem uma variedade dos médiuns inspirados.
187. Podem dividir-se os médiuns em duas grandes categorias:
Médiuns de efeitos físicos, os que têm o poder de provocar efeitos materiais, ou manifestações ostensivas. (N. 160.)
Médiuns de efeitos intelectuais, os que são mais aptos a receber e a transmitir comunicações inteligentes. (N. 65 e seguintes.
DA FORMAÇÃO DOS MÉDIUNS
A primeira condição é colocar-se o médium, com fé sincera, sob a proteção de Deus e solicitar a assistência do seu anjo de guarda, que é sempre bom, ao passo que os espíritos familiares, por simpatizarem com as suas boas ou más qualidades, podem ser
levianos ou mesmo maus.
Algumas pessoas, na impaciência de verem desenvolver-se em si as faculdades mediúnicas, desenvolvimento que consideram muito demorado, se lembram de buscar o auxílio de um Espírito qualquer, ainda que mau.
Suponhamos agora que a faculdade mediúnica esteja completamente
desenvolvida; que o médium escreva com facilidade; que seja, em suma, o que se chama um médium feito. Grande erro de sua parte fora crer-se dispensado de qualquer instrução mais, porquanto apenas terá vencido uma resistência material. Do ponto a que chegou é que começam as verdadeiras dificuldades, é que ele mais do que nunca precisa dos conselhos da prudência e da experiência, se não quiser cair nas mil armadilhas que lhe vão ser preparadas. Se
pretender muito cedo voar com suas próprias asas, não tardará em ser vítima de Espíritos mentirosos, que não se descuidarão de lhe explorar a presunção.
Uma vez desenvolvida a faculdade, é essencial que o médium não abuse dela. O contentamento que daí advém a alguns principiantes lhes provoca um entusiasmo, que muito importa moderar. Devem lembrar-se de que ela lhes foi dada para o bem e não para satisfação de vã curiosidade. Convém, portanto, que só se utilizem
dela nas ocasiões oportunas e não a todo momento. Não lhes estando os Espíritos ao dispor a toda hora, correm o risco de ser enganados por mistificadores.
Bom é que, parA evitarem esse mal, adotem o sistema de só trabalhar em dias e horas determinados, porque assim se entregarão ao trabalho em condições de maior recolhimento e os Espíritos que os queiram auxiliar, estando prevenidos, se disporão melhor a prestar esse
auxílio.
3ª Que é o que pode causar o abandono de um médium, por parte dos Espíritos?
"O que mais influi para que assim procedam os bons Espíritos é o uso que o médium faz da sua faculdade. Podemos abandoná-lo, quando dela se serve para coisas frívolas, ou com propósitos ambiciosos; quando se nega a transmitir as nossas palavras,
ou os fatos por nós produzidos, aos encarnados que para ele apelam, ou que têm
necessidade de ver para se convencerem. Este dom de Deus não é concedido ao médium para seu deleite e, ainda menos, para satisfação de suas ambições, mas para o fim da sua
melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade. Se o Espírito verifica que o médium já não corresponde às suas vistas e já não aproveita das instruções nem dos conselhos que lhe dá, afasta-se, em busca de um protegido mais digno."
4ª Não pode o Espírito que se afasta ser substituído e, neste caso, não se conceberia a suspensão da faculdade?
"Espíritos não faltam, que outra coisa não desejam senão comunicar-se e que, portanto, estão sempre prontos a substituir os que se afastam; mas, quando o que
abandona o médium é um Espírito bom, pode suceder que o seu afastamento seja apenas temporário, para privá-lo, durante certo tempo, de toda comunicação, a fim de lhe
provar que a sua faculdade não depende dele médium e que, assim, razão não há para dela se vangloriar. Essa impossibilidade temporária também serve para dar ao médium a prova de que ele escreve sob uma influência estranha, pois, de outro modo, não haveria
intermitências."
"Em suma, a interrupção da faculdade nem sempre é uma punição; demonstra às vezes a solicitude do Espírito para com o médium, a quem consagra afeição, tendo por objetivo proporcionar-lhe um repouso material de que o julgou necessitado, caso em que não permite que outros Espíritos o substituam."
5ª Vêem-se, no entanto, médiuns de muito mérito, moralmente falando, que nenhuma necessidade de repouso sentem e que muito se contrariam com essas interrupções, cujo fim lhes escapa.
"Servem para lhes pôr a paciência à prova e para lhes experimentar a
perseverança. Por isso é que os Espíritos nenhum termo, em geral, assinam à suspensão da faculdade mediúnica; é para verem se o médium descoroçoa. E também para lhe dar
tempo de meditar as instruções recebidas. Por essa meditação dos nossos ensinos é que reconhecemos os espíritas verdadeiramente sérios. Não podemos dar esse nome aos que, na realidade, não passam de amadores de comunicações."
9ª Assim, a interrupção da faculdade mediúnica nem sempre traduz uma censura da parte do Espírito?
"Não, sem dúvida, pois que pode ser uma prova de benevolência."
10ª Por que sinal se pode reconhecer a censura nesta interrupção?
"Interrogue o médium a sua consciência e inquira de si mesmo qual o uso que tem feito da sua faculdade, qual o bem que dela tem resultado para os outros, que proveito há tirado dos conselhos que se lhe têm dado e terá a resposta."
6ª Haverá inconveniente em desenvolver-se a mediunidade nas crianças?
"Certamente e sustento mesmo que é muito perigoso, pois que esses organismos débeis e delicados sofreriam por essa forma grandes abalos, e as respectivas imaginações excessiva sobreexcitação. Assim, os pais prudentes devem afastá-las dessas idéias, ou,
quando nada, não lhes falar do assunto, senão do ponto de vista das conseqüências morais."
7ª Há, no entanto, crianças que são médiuns naturalmente, quer de efeitos físicos, quer de escrita e de visões. Apresenta isto o mesmo inconveniente?
"Não; quando numa criança a faculdade se mostra espontânea, é que está na sua natureza e que a sua constituição se presta a isso O mesmo não acontece, quando é provocada e sobreexcitada. Nota que a criança, que tem visões, geralmente não se impressiona com estas, que lhe parecem coisa
naturalíssima, a que dá muito pouca atenção e quase sempre esquece. Mais tarde, o fato lhe volta à memória e ela o explica facilmente, se conhece o Espiritismo."
222. A prática do Espiritismo, como veremos mais adiante, demanda muito tato, para a inutilização das tramas dos Espíritos enganadores. Se estes iludem a homens feitos, claro é que a infância e a juventude mais expostas se acham a ser vítimas deles.
Sabe-se, além disso, que o recolhimento é uma condição sem a qual não se pode lidar com Espíritos sérios. As evocações feitas estouvadamente e por gracejo constituem verdadeira profanação, que facilita o acesso aos Espíritos zombeteiros, ou malfazejos.
Ora, não se podendo esperar de uma criança a gravidade necessária a semelhante ato, muito de temer é que ela faça disso um brinquedo, se ficar entregue a si mesma. Ainda nas condições mais favoráveis, é de desejar que uma criança dotada de faculdade mediúnica não a exercite, senão sob a vigilância de pessoas experientes, que lhe
ensinem, pelo exemplo, o respeito devido às almas dos que viveram no mundo. Por aí se vê que a questão de idade está subordinada às circunstâncias, assim de temperamento,
como de caráter. Todavia, o que ressalta com clareza das respostas acima é que não se deve forçar o desenvolvimento dessas faculdades nas crianças, quando não é espontânea, e que, em todos os casos, se deve proceder com grande circunspeção, não convindo nem excitá-las, nem animá-las nas pessoas débeis. Do seu exercício cumpre
afastar, por todos os meios possíveis, as que apresentem sintomas, ainda que mínimos, de excentricidade nas idéias, ou de enfraquecimento das faculdades mentais, porquanto,
nessas pessoas, há predisposição evidente para a loucura, que se pode manifestar por efeito de qualquer sobreexcitação. As idéias espíritas não têm, a esse respeito, maior influência do que outras, mas, vindo a loucura a declarar-se, tomará o caráter de preocupação dominante, como tomaria o caráter religioso, se a pessoa se entregasse em
excesso às práticas de devoção, e a responsabilidade seria lançada ao Espiritismo. O que de melhor se tem a fazer com todo indivíduo que mostre tendência à idéia fixa é dar outra diretriz às suas preocupações, a fim de lhe proporcionar repouso aos órgãos
enfraquecidos. Chamamos, a propósito deste assunto, a atenção dos nossos leitores para o parágrafo XII da "Introdução" de O Livro dos Espíritos.
CAPÍTULO XIX
DO PAPEL DOS MÉDIUNS NAS COMUNICAÇÕES
ESPÍRITAS
3ª Como distinguir se o Espírito que responde é o do médium, ou outro?
"Pela natureza das comunicações. Estuda as circunstâncias e a linguagem e
distinguirás. No estado de sonambulismo, ou de êxtase, é que, principalmente, o Espírito
do médium se manifesta, porque então se encontra mais livre. No estado normal é mais
difícil. Aliás, há respostas que se lhe não podem atribuir de modo algum. Por isso é que
te digo: estuda e observa."
NOTA. Quando uma pessoa nos fala, distinguimos facilmente o que vem dela
daquilo de que ela é apenas o eco. O mesmo se verifica com os médiuns.
7ª O Espírito encarnado no médium exerce alguma influência sobre as
comunicações que deva transmitir, provindas de outros Espíritos?
"Exerce, porquanto, se estes não lhe são simpáticos, pode ele alterar-lhes as
respostas e assimilá-las às suas próprias idéias e a seus pendores; não influencia, porém,
os próprios Espíritos, autores das respostas; constitui-se apenas em mau intérprete."
8ª Será essa a causa da preferência dos Espíritos por certos médiuns?
"Não há outra. Os Espíritos procuram o intérprete que mais simpatize com eles e
que lhes exprima com mais exatidão os pensamentos. Não havendo entre eles simpatia,
o Espírito do médium é um antagonista que oferece certa resistência e se toma, um
intérprete de má qualidade e muitas vezes infiel. E o que se dá entre vós, quando a
opinião de um sábio é transmitida por intermédio de um estonteado, ou de uma pessoa
de má-fé."
"Quando queremos transmitir ditados espontâneos, atuamos sobre o cérebro,
sobre os arquivos do médium e preparamos os nossos materiais com os elementos que
ele nos fornece e isto à sua revelia. E como se lhe tomássemos à bolsa as somas que ele
aí possa ter e puséssemos as moedas que as formam na ordem que mais conveniente nos parecesse.
Não há
médium que faça mau uso da sua faculdade, por ambição ou interesse, ou que a
comprometa por causa de um defeito capital, como o orgulho, o egoísmo, a leviandade,
etc., e que, de tempos a tempos, não receba admoestações dos Espíritos. O pior é que as
mais das vezes eles não as tomam como dirigidas a si próprios."
"Não creias que a faculdade mediúnica seja dada somente para correção de uma,
ou duas pessoas, não. O objetivo é mais alto: trata-se da Humanidade. Um médium é um
instrumento pouquíssimo importante, como indivíduo. Por isso é que, quando damos
instruções que devem aproveitar à generalidade dos homens, nos servimos dos que
oferecem as facilidades necessárias. Tenha-se, porém, como certo que tempo virá em
que os bons médiuns serão muito comuns, de sorte que os bons Espíritos não precisarão
servir-se de instrumentos maus."
As qualidades que, de preferência, atraem os bons
Espíritos são: a bondade, a benevolência, a simplicidade do coração, o amor do
próximo, o desprendimento das coisas materiais. Os defeitos que os afastam são: o
orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, a sensualidade e todas as
paixões que escravizam o homem à matéria
O orgulho, nos médiuns, traduz-se por sinais inequívocos, a cujo respeito tanto
mais necessário é se insista, quanto constitui uma das causas mais fortes de suspeição,
no tocante à veracidade de suas comunicações. Começa por uma confiança cega nessas
mesmas comunicações e na infalibilidade do Espírito que lhas dá. Daí um certo desdém
por tudo o que não venha deles: é que julgam ter o privilégio da verdade. O prestígio
dos grandes nomes, com que se adornam os Espíritos tidos por seus protetores, os
deslumbra e, como neles o amor próprio sofreria, se houvessem de confessar que são
ludibriados, repelem todo e qualquer conselho; evitam-nos mesmo, afastando-se de seus
amigos e de quem quer que lhes possa abrir os olhos. Se condescendem em escutá-los,
nenhum apreço lhes dão às opiniões, porquanto duvidar do Espírito que os assiste fora
quase uma profanação. Aborrecem-se com a menor contradita, com uma simples
observação crítica
"Em tese geral, pode afirmar-se que os Espíritos atraem Espíritos que lhes são
similares e que raramente os Espíritos das plêiadas elevadas se comunicam por aparelhos maus condutores, quando têm à mão bons aparelhos mediúnicos, bons médiuns,
numa palavra.
CAPÍTULO XXIII
DA OBSESSÃO
A subjugação corporal tira muitas vezes ao obsidiado a energia necessária
para dominar o mau Espírito. Daí o tornar-se precisa a intervenção de um terceiro, que
atue, ou pelo magnetismo, ou pelo império da sua vontade. Em falta do concurso do
obsidiado, essa terceira pessoa deve tomar ascendente sobre o Espírito; porém, como
este ascendente só pode ser moral, só a um ser moralmente superior ao Espírito é dado
assumi-lo e seu poder será tanto maior, quanto maior for a sua superioridade moral,
porque, então, se impõe àquele, que se vê forçado a inclinar-se diante dele. Por isso é
que Jesus tinha tão grande poder para expulsar o a que naquela época se chamava
demônio, isto é, os maus Espíritos obsessores.
Aqui, não podemos oferecer mais do que conselhos gerais, porquanto nenhum
processo material existe, como, sobretudo, nenhuma fórmula, nenhuma palavra
sacramental, com o poder de expelir os Espíritos obsessores. As vezes, o que falta ao
obsidiado é força fluídica suficiente; nesse caso, a ação magnética de um bom
magnetizador lhe pode ser de grande proveito. Contudo, é sempre conveniente
procurar, por um médium de confiança, os conselhos de um Espírito superior, ou do
anjo guardião.
DA IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS
Provas possíveis de identidade. - Modo de se distinguirem os bons dos maus
Espíritos. - Questões sobre a natureza e a identidade dos Espíritos.
Provas possíveis de identidade
255. A questão da identidade dos Espíritos é uma das mais controvertidas,
mesmo entre os adeptos do Espiritismo. É que, com efeito, os Espíritos não nos trazem
um ato de notoriedade e sabe-se com que facilidade alguns dentre eles tomam nomes
que nunca lhes pertenceram. Esta, por isso mesmo, é, depois da obsessão, uma das
maiores dificuldades do Espiritismo prático. Todavia, em muitos casos, a identidade
absoluta não passa de questão secundária e sem importância real.
A identidade dos Espíritos das personagens antigas é a mais difícil de se
conseguir, tornando-se muitas vezes
impossível, pelo que ficamos adstritos a uma apreciação puramente moral. Julgam-se os
Espíritos, como os homens, pela sua linguagem. Se um Espírito se apresenta com o
nome de Fénelon, por exemplo, e diz trivialidades e puerilidades, está claro que não
pode ser ele. Porém, se somente diz coisas dignas do caráter de Fénelon e que este não
se furtaria a subscrever, há, senão prova material, pelo menos toda probabilidade moral
de que seja de fato ele. Nesse caso, sobretudo, é que a identidade real se torna uma
questão acessória. Desde que o Espírito só diz coisas aproveitáveis, pouco importa o
nome sob o qual as diga. Objetar-se-á, sem dúvida, que o Espírito que tome um nome
suposto, ainda que só para o bem, não deixa de cometer uma fraude: não pode,
portanto, ser um Espírito bom. Aqui, há delicadezas de matizes muito difíceis de
apanhar e que vamos tentar desenvolver.
256. À medida que os Espíritos se purificam e elevam na hierarquia, os
caracteres distintivos de suas personalidades se apagam, de certo modo, na
uniformidade da perfeição; nem por isso , entretanto, conservam eles menos suas
individualidades. É o que se dá com os Espíritos superiores e os Espíritos puros. Nessa
culminância, o nome que tiveram na Terra, em uma das mil existências corporais
efêmeras por que passaram, é coisa absolutamente insignificante. Notemos mais que os
Espíritos são atraídos uns para os outros pela semelhança de suas qualidades e formam
assim grupos, ou famílias, por simpatia. De outro lado, se considerarmos o número
imenso de Espíritos que, desde a origem dos tempos, devem ter galgado as fileiras mais
altas e se o compararmos ao número tão restrito dos homens que hão deixado um
grande nome na Terra, compreenderemos que, entre os Espíritos superiores, que podem
comunicar-se, a maioria deve carecer de nomes para nós. Porém, como de nomes
precisamos para fixarmos as nossas idéias, podem eles tomar o de uma personagem
conhecida, cuja natureza mais identificada seja com a deles. É assim que os nossos anjos
guardiães se fazem as mais das vezes conhecer pelo nome de um dos santos que veneramos e, geralmente,
pelo daquele que nos inspira mais simpatia. Segue-se daí que, se o anjo guardião de uma
pessoa se dá como sendo S. Pedro, por exemplo, ela nenhuma prova material pode ter
de que seja exatamente o apóstolo desse nome. Tanto pode ser ele, como um Espírito
desconhecido inteiramente, mas pertencente à família de Espíritos de que faz parte São
Pedro. Segue-se ainda que, seja qual for o nome sob que alguém invoque o seu anjo
guardião, este acudirá ao apelo que lhe é dirigido, porque o que o atrai é o pensamento,
sendo-lhe indiferente o nome.
O mesmo ocorre todas as vezes que um Espírito superior se comunica
espontaneamente, sob o nome de uma personagem conhecida. Nada prova que seja
exatamente o Espírito dessa personagem; porém, se ele nada diz que desminta o caráter
desta última, há presunção de ser o próprio e, em todos os casos, se pode dizer que, se
não é ele, é um Espírito do mesmo grau de elevação, ou talvez até um enviado seu. Em
resumo, a questão de nome é secundária, podendo-se considerar o nome como simples
indício da categoria que ocupa o Espírito na escala espírita.
Os Espíritos superiores formam, por assim
dizer, um todo coletivo, cujas individualidades nos são, com exceções raras,
desconhecidas. Não é a pessoa deles o que nos interessa, mas o ensino que nos
proporcionam. Ora, desde que esse ensino é bom,
pouco importa que aquele que o deu se chame Pedro, ou Paulo. Deve ele ser julgado
pela sua qualidade e não pelas suas insígnias. Se um vinho é mau, não será a etiqueta
que o tornará melhor. Outro tanto já não sucede com as comunicações íntimas, porque
aí é o indivíduo, a sua pessoa mesma que nos interessa; muito razoável, portanto, é que,
nessas circunstâncias, procuremos certificar-nos de que o Espírito que atende ao nosso chamado é realmente aquele que desejamos.
Um meio empregado, às vezes com êxito, para se conseguir identificar um
Espírito que se comunica, quando ele se toma suspeito, consiste em fazê-lo afirmar, em
nome de Deus Todo-Poderoso, que é realmente quem diz ser. Sucede freqüentemente
que o que se apresentou com um nome usurpado recua diante do sacrilégio e que, tendo
começado a dizer: Afirmo, em nome de... pára e traça, colérico, riscos sem valor no
papel, ou quebra o lápis. Se é mais hipócrita, ladeia a questão, mediante uma restrição
mental, escrevendo, por exemplo: Certifico-vos que digo a verdade, ou então: Atesto,
em nome de Deus, que sou mesmo eu quem vos fala, etc.
Modos de se distinguirem os bons dos
maus Espíritos
262. Se a identidade absoluta dos Espíritos é, em muitos casos, uma questão
acessória e sem importância, o mesmo já não se dá com a distinção a ser feita entre bons
e maus Espíritos. Pode ser-nos indiferente a individualidade deles; suas qualidades,
nunca. Em todas as comunicações instrutivas, é sobre este ponto, conseguinte-mente,
que se deve fixar a atenção, porque só ele nos pode dar a medida da confiança que
devemos ter no Espírito que se manifesta, seja qual for o nome sob que o faça. É bom,
ou mau, o Espírito que se comunica? Em que grau da escala espírita se encontra? Eis as
questões capitais. (Veja-se: "Escala espírita", em O Livro dos Espíritos, n. 100.)
263. Já dissemos que os Espíritos devem ser julgados, como os homens, pela
linguagem de que usam. Suponhamos que um homem receba vinte cartas de pessoas que
lhe são desconhecidas; pelo estilo, pelas idéias, por uma imensidade de indícios, enfim,
verificará se aquelas pessoas são instruídas ou ignorantes, polidas ou mal-educadas,
superficiais, profundas, frívolas, orgulhosas, sérias, levianas, Sentimentais, etc. Assim,
também, com os Espíritos. Devemos considerá-los correspondentes que nunca vi mos e procurar conhecer o que pensaríamos do saber e do caráter de um homem que
dissesse ou escrevesse tais coisas. Pode estabelecer-se como regra invariável e sem
exceção que - a linguagem dos Espíritos está sempre em relação com o grau de
elevação a que já tenham chegado. Os Espíritos realmente superiores não só dizem
unicamente coisas boas, como também as dizem em termos isentos, de modo absoluto,
de toda trivialidade. Por melhores que sejam essas coisas, se uma única expressão
denotando baixeza as macula, isto constitui um sinal indubitável de inferioridade; com
mais forte razão, se o conjunto do ditado fere as conveniências pela sua grosseria. A
linguagem revela sempre a sua procedência, quer pelos pensamentos que exprime, quer
pela forma, e, ainda mesmo que algum Espírito queira iludir-nos sobre a sua pretensa
superioridade, bastará conversemos algum tempo com ele para a apreciarmos.
264. A bondade e a afabilidade são atributos essenciais dos Espíritos depurados.
Não têm ódio, nem aos homens, nem aos outros Espíritos. Lamentam as fraquezas,
criticam os erros, mas sempre com moderação, sem fel e sem animosidade. Admita-se
que os Espíritos verdadeiramente bons não podem querer senão o bem e dizer senão
coisas boas e se concluirá que tudo o que denote, na linguagem dos Espíritos, falta de
bondade e de benignidade não pode provir de um bom Espírito.
A experiência demonstra que os sábios, tanto quanto os demais homens, sobretudo
os desencarnados de pouco tempo, ainda se acham sob o império dos preconceitos da
vida corpórea; eles não se despojam imediatamente do espírito de sistema. Pode> pois,
acontecer que, sob a influência das idéias que esposaram em vida e das quais fizeram
para si um título de glória, vejam com menos clareza do que supomos. Não apresentamos este princípio como regra; longe disso. Dizemos apenas que o fato se dá e que, por conseguinte, a ciência humana que eles possuem não constitui sempre uma prova da sua infalibilidade, como Espíritos.
266. Em se submetendo todas as comunicações a um exame escrupuloso, em se
lhes perscrutando e analisando o pensamento e as expressões, como é de uso fazer-se
quando se trata de julgar uma obra literária, rejeitando-se, sem hesitação, tudo o que
peque contra a lógica e o bom-senso, tudo o que desminta o caráter do Espírito que se
supõe ser o que se está manifestando, leva-se o desânimo aos Espíritos mentirosos, que
acabam por se retirar, uma vez fiquem bem convencidos de que não lograrão iludir.
Repetimos: este meio é único, mas é infalível, porque não há comunicação má que
resista a uma crítica ngorosa. Os bons espíritos nunca se ofendem com esta, pois que
eles próprios a aconselham e porque nada têm que temer do exame. Apenas os maus se
formalizam e procuram evitá-lo, porque tudo têm a perder. Só com isso provam o que
são.
Eis aqui o conselho que a tal respeito nos deu São Luís:
"Qualquer que seja a confiança legítima que vos inspirem os Espíritos que
presidem aos vossos trabalhos, uma recomendação há que nunca será demais repetir e
que deveríeis ter presente sempre na vossa lembrança, quando vos entregais aos vossos
estudos: é a de pesar e meditar, é a de submeter ao cadinho da razão mais severa todas
as comunicações que receberdes; é a de não deixardes de pedir as explicações necessárias a formardes opinião segura, desde que um ponto vos
pareça suspeito, duvidoso ou obscuro."
267. Podem resumir-se nos princípios seguintes os meios de se reconhecer a
qualidade dos Espíritos:
1º Não há outro critério, senão o bom-senso, para se aquilatar do valor dos
Espíritos. Absurda será qualquer fórmula que eles próprios dêem para esse efeito e não
poderá provir de Espíritos superiores.
2º Apreciam-se os Espíritos pela linguagem de que usam e pelas suas ações.
Estas se traduzem pelos sentimentos que eles inspiram e pelos conselhos que dão.
3º Admitido que os bons Espíritos só podem dizer e fazer o bem, de um bom
Espírito não pode provir o que tenda para o mal.
4º Os Espíritos superiores usam sempre de uma linguagem digna, nobre,
elevada, sem eiva de trivialidade; tudo dizem com simplicidade e modéstia, jamais se
vangloriam, nem se jactam de seu saber, ou da posição que ocupam entre os outros. A
dos Espíritos inferiores ou vulgares sempre algo refletem das paixões humanas. Toda
expressão que denote baixeza, pretensão, arrogância, fanfarronice, acrimônia, é indício
característico de inferioridade e de embuste, se o Espírito se apresenta com um nome
respeitável e venerado.
5º Não se deve julgar da qualidade do Espírito pela forma material, nem pela
correção do estilo. É preciso sondar-lhe o íntimo, analisar-lhe as palavras, pesá-las
friamente, maduramente e sem prevenção. Qualquer ofensa à lógica, à razão e à
ponderação não pode deixar dúvida sobre a sua procedência, seja qual for o nome com
que se ostente o Espírito. (N. 224.)
6º A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica, senão quanto à forma,
pelo menos quanto ao fundo. Os pensamentos são os mesmos, em qualquer tempo e em
todo lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidos, conforme as circunstâncias, as
necessidades e as faculdades que encontrem para se comunicar; porém, jamais serão contraditórios. Se duas
comunicações, firmadas pelo mesmo nome, se mostram em contradição, uma das duas é
evidentemente apócrifa e a verdadeira será aquela em que nada desminta o conhecido
caráter da personagem. Sobre duas comunicações assinadas, por exemplo, com o nome
de São Vicente de Paulo, uma das quais propendendo para a união e a caridade e a
outra tendendo para a discórdia, nenhuma pessoa sensata poderá equivocar-se.
7º Os bons Espíritos só dizem o que sabem; calam-se ou confessam a sua
ignorância sobre o que não sabem. Os maus falam de tudo com desassombro, sem se
preocuparem com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choque
o bom-senso, aponta a fraude, desde que o Espírito se dê por ser um Espírito
esclarecido.
8º Reconhecem-se ainda os Espíritos levianos, pela facilidade com que predizem
o futuro e precisam fatos materiais de que não nos é dado ter conhecimento. Os bons
Espíritos fazem que as coisas futuras sejam pressentidas, quando esse pressentimento
convenha; nunca, porém, determinam datas. A previsão de qualquer acontecimento para
uma época determinada é indício de mistificação.
9º Os Espíritos superiores se exprimem com simplicidade, sem prolixidade. Têm
o estilo conciso, sem exclusão da poesia das idéias e das expressões, claro, inteligível a
todos, sem demandar esforço para ser compreendido. Têm a arte de dizer muitas coisas
em poucas palavras, porque cada palavra é empregada com exatidão. Os Espíritos
inferiores, ou falsos sábios, ocultam sob o empolamento, ou a ênfase, o vazio de suas
idéias. Usam de uma linguagem pretensiosa, ridícula, ou obscura, à força de quererem
pareça profunda.
10º Os bons Espíritos nunca ordenam; não se impõem, aconselham e, se não são
escutados, retiram-se. Os maus são imperiosos; dão ordens, querem ser obedecidos e
não se afastam, haja o que houver. Todo Espírito que impõe trai a sua inferioridade. São
exclusivistas e absolutos em suas opiniões; pretendem ter o privilégio da verdade. Exigem crença cega
e jamais apelam para a razão, por saberem que a razão os desmascararia.
11º Os bons Espíritos não lisonjeiam; aprovam o bem feito, mas sempre com
reserva. Os maus prodigalizam exagerados elogios, estimulam o orgulho e a vaidade,
embora pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles a
quem desejam captar.
l2º Os Espíritos superiores desprezam, em tudo, as puerilidades da forma. Só os
Espíritos vulgares ligam importância a particularidades mesquinhas, incompatíveis com
idéias verdadeiramente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de
inferioridade e de fraude, da parte de um Espírito que tome um nome imponente.
13º Deve-se desconfiar dos nomes singulares e ridículos, que alguns Espíritos
adotam, quando querem impor-se à credulidade; fora soberanamente absurdo tomar a
sério semelhantes nomes.
14º Deve-se igualmente desconfiar dos Espíritos que com muita facilidade se
apresentam, dando nomes extremamente venerados, e não lhes aceitar o que digam,
senão com muita reserva. Aí, sobretudo, é que uma verificação severa se faz
indispensável, porquanto isso não passa muitas vezes de uma máscara que eles tomam,
para dar a crer que se acham em relações íntimas com os Espíritos excelsos. Por esse
meio, lisonjeiam a vaidade do médium e dela se aproveitam freqüentemente para induzi-
lo a atitudes lamentáveis e ridículas.
15º Os bons Espíritos são muito escrupulosos no tocante às atitudes que hajam
aconselhar. Elas, qualquer que seja o caso, nunca deixam de objetivar um fim sério e
eminentemente útil. Devem, pois, ter-se por suspeitas todas as que não apresentam este
caráter, ou sejam condenáveis perante a razão, e cumpre refletir maduramente antes de
tomá-las, a fim de evitarem-se mistificações desagradáveis.
l6º Também se reconhecem os bons Espíritos pela prudente reserva que guardam sobre todos os assuntos que possam trazer comprometimento. Repugna-lhes desvendar o mal, enquanto que aos
Espíritos levianos, ou malfazejos apraz pô-lo em evidência. Ao passo que os bons
procuram atenuar os erros e pregam a indulgência, os maus os exageram e sopram a
cizânia, por meio de insinuações pérfidas.
17º Os bons Espíritos só prescrevem o bem. Máxima nenhuma, nenhum
conselho, que se não conformem estritamente com a pura caridade evangélica, podem
ser obra de bons Espíritos.
18º Jamais os bons Espíritos aconselham senão o que seja perfeitamente racional.
Qualquer recomendação que se afaste da linha reta do bom-senso, ou das leis imutáveis
da Natureza, denuncia um Espírito atrasado e, portanto, pouco merecedor de confiança.
19º Os Espíritos maus, ou simplesmente imperfeitos, ainda se traem por indícios
materiais, a cujo respeito ninguém se pode enganar. A ação deles sobre o médium é às
vezes violenta e provoca movimentos bruscos e intermitentes, uma agitação febril e
convulsiva, que destoa da calma e da doçura dos bons Espíritos.
20º Muitas vezes, os Espíritos imperfeitos se aproveitam dos meios de que
dispõem, de comunicar-se, para dar conselhos pérfidos. Excitam a desconfiança e a
animosidade contra os que lhes são antipáticos. Especialmente os que lhes podem
desmascarar as imposturas são objeto da maior animadversão da parte deles. Alvejam os
homens fracos, para os induzir ao mal. Empregando alternativamente, para melhor
convencê-los, os sofismas, os sarcasmos, as injúrias e até demonstrações materiais do
poder oculto de que dispõem, se empenham em desviá-los da senda da verdade.
21º Os Espíritos dos que na Terra tiveram uma única preocupação, material ou
morai, se se não desprenderam da influência da matéria, continuam sob o império das
idéias terrenas e trazem consigo uma parte dos preconceitos, das predileções e mesmo
das manias que tinham neste mundo. Fácil é isso de reconhecer-se pela linguagem de que se servem.
22º Os conhecimentos de que alguns Espíritos se enfeitam, às vezes, com uma
espécie de ostentação, não constituem sinal da superioridade deles. A inalterável pureza
dos sentimentos morais é, a esse respeito, a verdadeira pedra de toque.
23º Não basta se interrogue um Espírito para conhecer-se a verdade.
Precisamos, antes de tudo, saber a quem nos dirigimos; porquanto, os Espíritos
inferiores, ignorantes que são, tratam frivolamente das questões mais sérias. Também
não basta que um Espírito tenha sido na Terra um grande homem, para que, no mundo
espírita, se ache de posse da soberana ciência. Só a virtude pode, purificando-o,
aproximá-lo de Deus e dilatar-lhe os conhecimentos.
24º Da parte dos Espíritos superiores, o gracejo é muitas vezes fino e vivo,
nunca, porém, trivial. Nos Espíritos zombadores, quando não são grosseiros, a sátira
mordaz é, não raro, muito apropositada.
25º Estudando-se cuidadosamente o caráter dos Espíritos que se apresentam,
sobretudo do ponto de vista moral, reconhecem-se-lhes a natureza e o grau de confiança
que devem merecer. O bom-senso não poderia enganar.
26º Para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é preciso, primeiro,
que cada um saiba julgar-se a si mesmo. Muita gente há, infelizmente, que toma suas
próprias opiniões pessoais como paradigma exclusivo do bom e do mau, do verdadeiro e
do falso; tudo o que lhes contradiga a maneira de ver, a suas idéias e ao sistema que
conceberam, ou adotaram, lhes parece mau. A semelhante gente evidentemente falta a
qualidade primacial para uma apreciação sã: a retidão do juízo. Disso, porém, nem
suspeitam. E o defeito sobre que mais se iludem os homens.
Todas estas instruções decorrem da experiência e dos ensinos dos Espíritos.
Vamos completá-las com as próprias respostas que eles deram, sobre os pontos mais
importantes.
CAPÍTULO XXV
DAS EVOCAÇÕES
Considerações gerais. - Espíritos que se podem evocar. - Linguagem de que se
deve usar com os Espíritos. - Utilidade das evocações particulares. - Questões sobre as
evocações. - Evocações dos animais. - Evocações das pessoas vivas. - Telegrafia
humana.
Considerações gerais
269. Os Espíritos podem comunicar-se espontaneamente, ou acudir ao nosso
chamado, isto é, vir por evocação. Pensam algumas pessoas que todos devem abster-se
de evocar tal ou tal Espírito e ser preferível que se espere aquele que queira comunicar-
se. Fundam-se em que, chamando determinado Espírito, não podemos ter a certeza de
ser ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente, de seu moto
próprio, melhor prova a sua identidade, pois que manifesta assim o desejo que. A evocação dos Espíritos vulgares tem, além disso, a vantagem de nos pôr em
contacto com Espíritos sofredores, que podemos aliviar e cujo adiantamento podemos
facilitar, por meio de bons conselhos. Todos, pois, nos podemos tomar úteis, ao mesmo
tempo que nos instruímos. Há egoísmo naquele que somente a sua própria satisfação
procura nas manifestações dos Espíritos, e dá prova de orgulho aquele que deixa de
estender a mão em socorro dos desgraçados. De que lhe serve obter delas comunicações
de Espíritos de escol, se isso não o faz melhor para consigo mesmo, nem mais caridoso
e benévolo para com seus irmãos deste mundo e do outro? Que seria dos pobres
doentes, se os médicos se recusassem a lhes tocar as chagas?
282. Questões sobre as evocações
1ª Pode alguém, sem ser médium, evocar os Espíritos?
"Toda gente pode evocar os Espíritos e, se aqueles que evocares não puderem
manifestar-se materialmente, nem por isso deixarão de estar junto de ti e de te escutar."
2ª O Espírito evocado atende sempre ao chamado que se lhe dirige?
"Isso depende das condições em que se encontre, porquanto há circunstâncias
em que não o pode fazer."
3ª Quais as causas que podem impedir atenda um Espírito ao nosso chamado?
"Em primeiro lugar, a sua própria vontade; depois, o seu estado corporal, se se
acha encarnado, as missões de que esteja encarregado, ou ainda o lhe ser, para isso,
negada permissão.
"Há Espíritos que nunca podem comunicar-se: os que, por sua natureza, ainda
pertencem a mundos inferiores a Terra. Tão pouco o podem os que se acham nas esferas
de punição, a menos que especial permissão lhes seja dada,
com um fim de utilidade geral. Para que um Espírito possa comunicar-se, preciso é
tenha alcançado o grau de adiantamento do mundo onde o chamam, pois, do contrário,
estranho que ele é às idéias desse mundo, nenhum ponto de comparação terá para se
exprimir. O mesmo já não se dá com os que estão em missão, ou em expiação, nos
mundos inferiores. Esses têm as idéias necessárias para responder ao chamado."
4ª Por que motivo pode a um Espírito ser negada permissão para se comunicar?
"Pode ser uma prova, ou uma punição, para ele, ou para aquele que o chama."
5ª Como podem os Espíritos, dispersos pelo espaço ou pelos diferentes mundos,
ouvir as evocações que lhes são dirigidas de todos os pontos do Universo?
"Muitas vezes são prevenidos pelos Espíritos familiares que vos cercam e que os
vão procurar. Porém, aqui se passa um fenômeno difícil de vos ser explicado porque
ainda não podeis compreender o modo de transmissão do pensamento entre os
Espíritos. O que te posso afirmar é que o Espírito evocado, por muito afastado que
esteja, recebe, por assim dizer, o choque do pensamento como uma espécie de comoção
elétrica que lhe chama a atenção para o lado de onde vem o pensamento que o atinge.
Pode dizer-se que ele ouve o pensamento, como na Terra ouves a voz."
a) Será o fluido universal o veículo do pensamento, como o ar o é do som?
"Sim, com a diferença de que o som não pode fazer-se ouvir senão dentro de um
espaço muito limitado, enquanto que o pensamento alcança o infinito. O Espírito, no
Além, é como o viajante que, em meio de vasta planície, ouvindo pronunciar o seu
nome, se dirige para o lado de onde o chamam."
6ª Sabemos que as distâncias nada são para os Espíritos; contudo, causa espanto
ver que respondem tão prontamente ao chamado, como se estivessem muito perto.
"É que, com efeito, às vezes, o estão. Se a evocação é premeditada, o Espírito se
acha de antemão prevenido e freqüentemente se encontra no lugar onde o vão evocar,
antes que o chamem."
7ª Dar-se-á que o pensamento do evocador seja mais ou menos facilmente
percebido, conforme as circunstâncias?
"Sem dúvida alguma. O Espírito é mais vivamente atingido, quando chamado
por um sentimento de simpatia e de bondade. É como uma voz amiga que ele
reconhece. A não se dar isso, acontece com freqüência que a evocação nenhum efeito
produz. O pensamento que se desprende da evocação toca o Espírito; se é mal dirigido,
perde-se no vácuo. Dá-se com os Espíritos o que se dá com os homens; se aquele que
os chama lhes é indiferente ou antipático, podem ouvi-lo, porém, as mais das vezes, não
o atendem."
8ª O Espírito evocado vem espontaneamente, ou constrangido?
"Obedece à vontade de Deus, isto é, à lei geral que rege o Universo. Todavia, a
palavra constrangido não se ajusta ao caso, porquanto o Espírito julga da utilidade de
vir, ou deixar de vir. Ainda aí exerce o livre-arbítrio. O Espírito superior vem sempre
que chamado com um fim útil; não se nega a responder, senão a pessoas pouco sérias e
que tratam destas coisas por divertimento."
9ª Pode o Espírito evocado negar-se a atender ao chamado que lhe é di rigido?
"Perfeitamente; onde estaria o seu livre-arbítrio, se assim não fosse? Pensais que
todos os seres do Universo estão às vossas ordens? Vós mesmos vos considerais
obrigados a responder a todos os que vos pronunciam os nomes? Quando digo que o
Espírito pode recusar-se, refiro-me ao pedido do evocador, visto que um Espírito
inferior pode ser constrangido a vir, por um Espírito superior."
10ª Haverá, para o evocador, meio de constranger um Espírito a vir, a seu mau grado ?
"Nenhum, desde que o Espírito lhe seja igual, ou superior, em moralidade. Digo
- em moralidade e não em inteligência, porque, então, nenhuma autoridade tem o
evocador sobre ele. Se lhe é inferior, o evocador pode consegui-lo, desde que seja para
bem do Espírito, porque, nesse caso, outros Espíritos o secundarão." (N. 279.)
11ª Haverá inconveniente em se evocarem Espíritos inferiores e será de temer
que, chamando-os, o evocador lhes fique sob o domínio?
"Eles não dominam senão os que se deixam dominar. Aquele que é assistido por
bons Espíritos nada tem que temer. Impõe-se aos Espíritos inferiores e não estes a ele.
Isolados, os médiuns, sobretudo os que começam, devem abster-se de tais evocações.
(N. 278.)
12ª Serão necessárias algumas disposições especiais para as evocações?
"A mais essencial de todas as disposições é o recolhimento, quando se deseja
entrar em comunicação com Espíritos sérios. Com fé e com o desejo do bem, tem-se
mais força para evocar os Espíritos superiores. Elevando sua alma, por alguns instantes
de recolhimento, quando da evocação, o evocador se identifica com os bons Espíritos e
os dispõe a virem."
13ª Para as evocações, é preciso fé?
"A fé em Deus, sim; para o mais, a fé virá, se desejardes o bem e tiverdes o
propósito de instruir-vos."
14ª Reunidos em comunhão de pensamentos e de intenções, dispõem os homens
de mais poder para evocar os Espíritos?
"Quando todos estão reunidos pela caridade e para o bem, grandes coisas
alcançam. Nada mais prejudicial ao resultado das evocações do que a divergência de
idéias."
15ª Será conveniente a precaução de se formar cadeia, dando-se todos as mãos,
alguns minutos antes de começar a reunião?
"A cadeia é um meio material, que não estabelece entre vós a união, se esta não
existe nos pensamentos; mais conveniente do que isso é unirem-se todos por um pensamento comum, chamando cada um, de seu lado, os bons Espíritos. Não imaginais
o que se pode obter numa reunião séria, de onde se haja banido todo sentimento de
orgulho e de personalismo e onde reine perfeito o de mútua cordialidade."
pensamento comum, chamando cada um, de seu lado, os bons Espíritos. Não imaginais
o que se pode obter numa reunião séria, de onde se haja banido todo sentimento de
orgulho e de personalismo e onde reine perfeito o de mútua cordialidade."
16ª São preferíveis as e vocações em dias e horas determinados?
"Sim e, se for possível, no mesmo lugar: os Espíritos ai acorrem com mais
satisfação. O desejo constante que tendes é que auxilia os Espíritos a se porem em
comunicação convosco. Eles têm ocupações, que não podem deixar de improviso, para
satisfação vossa pessoal. Digo no mesmo lugar, mas não julgueis que isso deva
constituir uma obrigação absoluta, porquanto os Espíritos vão a toda parte. Quero dizer
que um lugar consagrado às reuniões é preferível, porque o recolhimento se faz mais
perfeito."
17ª Certos objetos, como medalhas e talismãs, têm a propriedade de atrair ou
repelir os Espíritos conforme pretendem alguns?
"Esta pergunta era escusada, porquanto bem sabes que a matéria nenhuma ação
exerce sobre os Espíritos. Fica bem certo de que nunca um bom Espírito aconselhará
semelhantes absurdidades. A virtude dos talismãs, de qualquer natureza que sejam,
jamais existiu, senão, na imaginação das pessoas crédulas."
18ª Que se deve pensar dos Espíritos que marcam encontros em lugares lúgubres
e a horas indevidas?
"Esses Espíritos se divertem à custa dos que lhes dão ouvidos. E sempre inútil e
não raro perigoso ceder a tais sugestões: inútil, porque nada absolutamente se ganha em
ser mistificado; perigoso, não pelo mal que possam fazer os Espíritos, mas pela
influência que isso pode ter sobre cérebros fracos."
19ª Haverá dias e horas mais propícias para as evocações?
"Para os Espíritos, isso é completamente indiferente, como tudo o que é
material, e fora superstição acreditar-se na influência dos dias e das horas. Os momentos
mais propícios são aqueles em que o evocador possa estar menos distraído pelas suas
ocupações habituais, em que se ache mais calmo de corpo e de espírito."
A evocação feita em nome de Deus é uma garantia contra a imiscuência dos
maus Espíritos?
"O nome de Deus não constitui freio para todos os Espíritos, mas contém muitos
deles; por esse meio, sempre afastareis alguns e muitos mais afastareis, se ela for feita do
fundo do coração e não como fórmula banal."
27ª Poder-se-á evocar nominativamente muitos Espíritos ao mesmo tempo?
"Não há nisso dificuldade alguma e, se tivésseis três ou quatro mãos para
escrever, três ou quatro Espíritos vos responderam ao mesmo tempo; é o que ocorre se
se dispõe de muitos médiuns."
Quando muitos Espíritos são evocados simultaneamente, não havendo mais
de um médium, qual o que responde?
"Um deles responde por todos e exprime o pensamento coletivo."
Quanto mais puro é o Espírito tanto mais o seu pensamento se irradia e se estende, como a luz.
7ª Podem os Espíritos dar-nos a conhecer o futuro?
"Se o homem conhecesse o futuro, descuidar-se-ia do presente.
"É esse ainda um ponto sobre o qual insistis sempre, no desejo de obter uma
resposta precisa. Grande erro há nisso, porquanto a manifestação dos Espíritos não é
um meio de adivinhação. Se fizerdes questão absoluta de uma resposta, recebê-la-eis de
um Espírito doidivanas, temo-lo dito a todo momento."
8ª Não é certo, entretanto, que, às vezes, alguns acontecimentos futuros são
anunciados espontaneamente e com verdade pelos Espíritos?
"Pode dar-se que o Espírito preveja coisas que julgue conveniente revelar, ou
que ele tem por missão tornar conhecidas; porém, nesse terreno, ainda são mais de
temer os Espíritos enganadores, que se divertem em fazer previsões. Só o conjunto das
circunstâncias permite se verifique o grau de confiança que elas merecem."
"Por uma e outra coisa. Eles podem, em certos casos, fazer que um
acontecimento seja pressentido: nessa hipótese, é um aviso que vos dão. Quanto a
precisar-lhe a época, é freqüente não o deverem fazer. Também sucede com freqüência
não o poderem, por não o saberem eles próprios. Pode o Espírito prever que um fato se
dará, mas o momento exato pode depender de acontecimentos que ainda se não
verificaram e que só Deus conhece. Os Espíritos levianos, que não escrupulizam de vos
enganar, esses determinam os dias e as horas, sem se preocuparem com que o fato
predito ocorra ou não. Por isso é que toda predição circunstanciada vos deve ser suspeita.
"Ainda uma vez: a nossa missão consiste em fazer-vos progredir; para isso vos
auxiliamos tanto quanto podemos. Jamais será enganado aquele que aos Espíritos
superiores pedir a sabedoria; não acrediteis, porém, que percamos o nosso tempo em
ouvir as vossas futilidades e em vos predizer a boa fortuna. Deixamos esse encargo aos
Espíritos levianos, que com isso se divertem, como crianças travessas.
Podem os Espíritos dar-nos a conhecer as nossas existências passadas?
"Deus algumas vezes permite que elas vos sejam reveladas, conforme o objetivo.
Se for para vossa edificação e instrução, as revelações serão verdadeiras e, nesse caso,
feitas quase sempre espontaneamente e de modo inteiramente imprevisto. Ele, porém,
não o permite nunca para satisfação de vã curiosidade."
17ª Podem pedir-se conselhos aos Espíritos?
"Certamente. Os bons Espíritos jamais recusam auxílio aos que os invocam com
confiança, principalmente no que concerne à alma.
Os nossos Espíritos protetores podem, em muitas circunstâncias,
indicar-nos o melhor caminho, sem, entretanto, nos conduzirem pela mão, porque, se
assim fizessem, perderíamos o mérito da iniciativa e não ousaríamos dar um passo sem a
eles recorrermos, com prejuízo do nosso aperfeiçoamento. Para progredir, precisa o
homem, muitas vezes, adquirir experiência à sua própria custa. Por isso é que os
Espíritos ponderados nos aconselham, mas quase sempre nos deixam entregues às
nossas próprias forças, como faz o educador hábil, com seus alunos. Nas circunstâncias
ordinárias da vida, eles nos aconselham pela inspiração, deixando-nos assim todo o
mérito do bem que façamos, como toda a responsabilidade do mal que pratiquemos.
"Os Espíritos vos vêm instruir e guiar no caminho do bem e não no das honras e
das riquezas, nem vêm para atender às vossas paixões mesquinhas. Se nunca lhes
pedissem nada de fútil, ou que esteja fora de suas atribuições, nenhum ascendente
encontrariam jamais os enganadores; donde deveis concluir que aquele que é mistificado só o é porque o merece.
Os grupos pequenos jamais se encontram sujeitos às mesmas flutuações. A
queda de uma grande Associação seria um insucesso aparente para a causa do
Espiritismo, do qual seus inimigos não deixariam de prevalecer-se. A dissolução de um
grupo pequeno passa despercebida e, ao demais, se um se dispersa, vinte outros se
formam ao lado. Ora, vinte grupos, de quinze a vinte pessoas, obterão mais e muito
mais farão pela propaganda, do que uma assembléia de trezentos ou de quatrocentos
indivíduos.
Perfeita comunhão de vistas e de sentimentos;
Cordialidade recíproca entre todos os membros;
Ausência de todo sentimento contrário à verdadeira caridade cristã;
Um único desejo: o de se instruírem e melhorarem, por meio dos ensinos dos
Espíritos e do aproveitamento
de seus conselhos. Quem esteja persuadido de que os Espíritos superiores se manifestam
com o fito de nos fazerem progredir, e não para nos divertirem, compreenderá que eles
necessariamente se afastam dos que se limitam a lhes admirar o estilo, sem nenhum
proveito tirar daí, e que só se interessam pelas sessões, de acordo com o maior ou
menor atrativo que lhes oferecem, segundo os gostos particulares de cada um deles;
Exclusão de tudo o que, nas comunicações pedidas aos Espíritos, apenas
exprima o desejo de satisfação da curiosidade;
Recolhimento e silêncio respeitosos, durante as confabulações com os Espíritos;
União de todos os assistentes, pelo pensamento, ao apelo feito aos Espíritos que
sejam evocados;
Concurso dos médiuns da assembléia, com isenção de todo sentimento de
orgulho, de amor-próprio e de supremacia e com o só desejo de serem úteis.
Serão estas condições de tão difícil preenchimento, que se não encontre quem as
satisfaça? Não o cremos; esperamos, ao contrário, que as reuniões verdadeiramente
sérias, como as que já se realizam em diversas localidades, se multiplicarão e não
hesitamos em dizer que a elas é que o Espiritismo será devedor da sua mais ampla
propagação. Religando os homens honestos e conscienciosos, elas imporão silêncio à
crítica e, quanto mais puras forem suas intenções, mais respeitadas serão, mesmo pelos
seus adversários: Quando a zombaria ataca o bem, deixa de provocar o riso: torna-se
desprezível. E nas reuniões desse gênero que se estabelecerão, pela força mesma das
coisas, laços de real simpatia, de solidariedade mútua, que contribuirão para o progresso
geral.
Todos os homens são médiuns, todos têm um Espírito que os dirige para o bem,
quando sabem escutá-lo. Agora, que uns se comuniquem diretamente com ele, valendo-
se de uma mediunidade especial, que outros não o escutem senão com o coração e com
a inteligência, pouco importa: não deixa de ser um Espírito familiar quem os aconselha.
Chamai-lhe espírito, razão, inteligência, é sempre uma voz que responde à vossa alma,
pronunciando boas palavras. Apenas, nem sempre as compreendeis.
Nem todos sabem agir de acordo com os conselhos da razão, não dessa razão
que antes se arrasta e rasteja do que caminha, dessa razão que se perde no emaranhado
dos interesses materiais e grosseiros, mas dessa razão que eleva o homem acima de si
mesmo, que o transporta a regiões desconhecidas, chama sagrada que inspira o artista e
o poeta, pensamento divino que exalça o filósofo, arroubo que arrebata os indivíduos e
povos, razão que o vulgo não pode compreender, porém que ergue o homem e o
aproxima de Deus, mais que nenhuma outra criatura, entendimento que o conduz do
conhecido ao desconhecido e lhe faz executar as coisas mais sublimes.
Escutai essa voz interior, esse bom gênio, que incessantemente vos fala, e
chegareis progressivamente a ouvir.
o vosso anjo guardião, que do alto dos céus vos estende as mãos. Repito: a voz íntima
que fala ao coração é a dos bons Espíritos e é deste ponto de vista que todos os homens
são médiuns.
Channing.
XI
O dom da mediunidade é tão antigo quanto o mundo. Os profetas eram médiuns.
Os mistérios de Elêusis se fundavam na mediunidade. Os Caldeus, os Assírios tinham
médiuns. Sócrates era dirigido por um Espírito que lhe inspirava os admiráveis
princípios da sua filosofia; ele lhe ouvia a voz. Todos os povos tiveram seus médiuns e
as inspirações de Joana d'Arc não eram mais do que vozes de Espíritos benfazejos que a
dirigiam.
Esse dom, que agora se espalha, raro se tornara nos séculos medievos; porém,
nunca desapareceu. Swedenborg e seus adeptos constituíram numerosa escola. A França
dos últimos séculos, zombeteira e preocupada com uma filosofia que, pretendendo
extinguir os abusos da intolerância religiosa, abafava sob o ridículo tudo o que era ideal,
a França tinha que afastar o Espiritismo, que progredia sem cessar ao Norte.
Permitira Deus essa luta das idéias positivas contra as idéias espiritualistas,
porque o fanatismo se constituíra a arma destas últimas. Agora, que os progressos da
indústria e da ciência desenvolveram a arte de bem viver, a tal ponto que as tendências
materiais se tornaram dominantes, quer Deus que os Espíritos sejam reconduzidos aos
interesses da alma. Quer que o aperfeiçoamento do homem moral se torne o que deve
ser, isto é, o fim e o objetivo da vida.
O Espírito humano segue em marcha necessária, imagem da graduação que
experimenta tudo o que povoa o Universo visível e invisível. Todo progresso vem na
sua hora: a da elevação moral soou para a Humanidade.
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