INTOLERÂNCIA RELIGIOSA DENTRO DA UMBANDA ?




INTOLERÂNCIA RELIGIOSA DENTRO DA UMBANDA ? 

Dentro da Umbanda, que nasce do encontro, da mistura e da escuta, é curioso, e doloroso , perceber como, muitas vezes, somos nós mesmos que nos colocamos uns contra os outros.

 Umbanda nunca foi uma religião de linha única. Ela nasce do cruzamento de saberes africanos, indígenas, espíritas, populares, do catolicismo, da vivência de terreiro. Ainda assim, há quem passe mais tempo tentando definir o que é “Umbanda de verdade” do que vivendo a própria Umbanda.

É comum ver umbandistas questionando outros umbandistas, afirmando que determinada prática não pertence à religião, que um fundamento está errado ou que uma entidade não deveria trabalhar daquela forma. Mas a pergunta que fica é por quê.

 Qual a real necessidade de invalidar o caminho do outro para afirmar o próprio?

A Umbanda não é um livro fechado, nem um manual rígido. Ela é prática viva, tradição oral, espiritualidade em movimento. Cada casa carrega uma história, uma ancestralidade, um chão. Há terreiros com fundamentos distintos, com diferentes modos de cultuar, cantar, firmar e organizar o trabalho espiritual. Isso não enfraquece a Umbanda. Isso revela sua pluralidade.

Quando um umbandista critica outro por ter fundamentos diferentes, muitas vezes não está defendendo a religião, mas o próprio ego. É uma disputa por legitimidade, por autoridade espiritual, por quem sabe mais ou por quem seria mais correto. 

Só que espiritualidade não se mede por pureza doutrinária, e sim por ética, cuidado, responsabilidade e respeito.

Umbanda não é sobre uniformidade. É sobre axé em movimento, sobre entender que a espiritualidade se manifesta conforme a necessidade do povo daquela casa, daquele território, daquela corrente. 

Quando esquecemos isso, transformamos a religião do acolhimento em espaço de vigilância e julgamento, exatamente o oposto do que ela propõe.

Questionar é saudável. Dialogar é necessário. Mas criticar para desqualificar, excluir ou hierarquizar o outro não fortalece a Umbanda, apenas a fragmenta. 

Se algo não faz sentido para você, siga o seu caminho com firmeza. O axé não precisa da negação do outro para existir.

Talvez a pergunta mais honesta não seja se algo é ou não Umbanda, mas se aquilo gera cuidado, se respeita as entidades, se respeita as pessoas e se sustenta o axé da casa. 

Se sim, talvez o problema não esteja no fundamento do outro, mas na nossa dificuldade de conviver com a diferença.

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